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Odvan, o zagueiro-zagueiro

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Por Rafael Monteiro

Ficha técnica
Nome: Odvan Gomes Silva Nascimento
Nascimento: 26 de março de 1974 (38 anos), Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro
Altura: 1,80m
Posição: zagueiro

A mãe era fã de Roberto Carlos. Sem saber o nome que ia dar para o seu filho, um menino negro e forte, nascido no dia 26 de março de 1974, em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, ela resolveu pedir a opinião da família. A sugestão veio do tio. Ele que veio contar que, no exato momento em que nascia a criança, a música que tocava em sua casa era justo a depressiva O Divã, do Rei. A mãe achou o título bonito e, mesmo sem saber do se tratava, decidiu que assim se chamaria o futuro jogador de futebol. O cartório errou, mas o destino estava certo ao não se intrometer. Nascia para o mundo Odvan, o zagueiro-zagueiro.

Odvan, aposentado, tem 39 anos. Ele foi visto em campo pela última vez com a camisa do modesto Goytacaz, da segunda divisão carioca, no ano passado. Antes do tradicional pequeno do Rio, o zagueiro atuou, entre outros times, no Americano, Santos, Botafogo, Fluminense, Madureira e, claro, no Vasco, onde conquistou os principais títulos da sua carreira.

Foram dois Campeonatos Brasileiros (1997 e 2000), um carioca (1998), uma Libertadores da América (1998), um Rio-São Paulo (1999), uma Mercosul (2000), além de uma convocação para a Seleção Brasileiro, que rendeu o título da Copa América (1999).

Uma carreira vitoriosa, indiscutivelmente. Ainda mais quando levamos em conta que não estamos falando de um zagueiro de primor técnico. Odvan era, sem dúvida alguma, um brucutu. Mas foi um grosso que soube tirar proveito da melhor fase do Vasco em anos e da companhia de Mauro Galvão para se tornar um dos jogadores mais carismáticos de toda a história do clube do navegante português. De balão e tropeços, a sua fama assim se fez.

O caçador de canelas

98766-700x0Odvan chegou ao Vasco em 1997, o ano do título brasileiro. A indicação partiu do craque do clube e do futebol nacional naquele ano, o ídolo Edmundo. Depois de tirar o experiente (36 anos) Mauro Galvão do Grêmio, o técnico Antônio Lopes e a diretoria buscavam um zagueiro rápido, para compensar a falta de velocidade do veterano. O Animal levou as partidas em que penou para passar pelo becão de 1,80 no Carioca, quando enfrentava o Americano, como base e fez o negócio vingar.

A dupla Galvão e Odvan convenceu a torcida rapidamente. Enquanto o primeiro mostrava categoria e um senso de cobertura incomum, o segundo partia para a caça, sem vergonha de acertar algumas canelas ou espantar a bola para longe. O Vasco não foi a melhor defesa da competição nacional, porém, tampouco esteve próximo das piores. Na decisão contra o Palmeiras, o time provou a sua força defensiva e se sagrou campeão com dois empates por 0 a 0, administrando a vantagem de ter tido a melhor campanha da competição na primeira fase.

Na Libertadores do ano seguinte, veio o título inédito do torneio do continente, já sem Edmundo. O Vasco manteve a base forte de 1997, que mesclava a técnica de jogadores como Felipe, Pedrinho, Juninho e Ramon com a vontade de Nasa, Luizinho e, claro, Odvan. A fase era tão boa que parecia possível o título mundial, diante do milionário Real Madrid.

No Japão, em compensação, os cariocas jogaram bem, mas pararam num dia ruim de Nasa (fez o gol contra) e na inspiração de Raúl, ainda promessa. No segundo gol, uma obra-prima do camisa 7 do Real, Odvan foi o segundo a ser driblado. Alguns torcedores até o acusaram de se desesperar na cobertura do atacante, mas a verdade é que a jogada permitia pouco tempo para se pensar (além do mais, ser cortado de forma humilhante por jogadores mais habilidosos era rotina do herói do texto).  O zagueiro ouviu um bocado, mas soube esperar pelo ponto alto da sua carreira, que seria comunicado no ano seguinte.

Moral com o pofexô

sistem332Em 1999, o treinador Vanderlei Luxemburgo precisou se explicar. Toda a imprensa queria saber o que levara o pofexô a escolher Odvan para integrar o elenco da Copa América. Sem tantas opções de zagueiro na época, o técnico justificou a convocação, dizendo que tratava-se de um “zagueiro-zagueiro”. Uma forma de explicar que o vascaíno não era bom, mas, pelo menos, não tentava fazer o que não sabia.

Pitadinha histórica, como diria o Roberto Avallone: infelizmente, outro jogador do Vasco convocado não teve a mesma sorte. Um jogo depois de saber que estava no grupo que iria viajar para o Paraguai, Pedrinho recebeu uma entrada violenta do zagueiro Jean Elias, do Cruzeiro, e teve os ligamentos do joelho rompidos. A partir daquele jogo, a revelação do Vasco passou a ser chamado de Podrinho, perna de vidro e outras ofensas, mas nunca mais pelo seu próprio nome em convocações da seleção brasileira.

No Paraguai, Odvan ganhou a camisa 4 da seleção brasileira, mas acabou perdendo a posição durante a competição. Viu o título ser conquistado do banco. Também da reserva testemunhou o garoto Ronaldinho Gaúcho entrar em campo e fazer o gol de placa contra a Venezuela. Chegara ao fim o tempo exclusivamente de glórias do beque de Campos.

Descendo a colina

odvanDepois da Copa América, Odvan ainda participou dos títulos da Copa João Havelange e da Mercosul pelo Vasco. Sem Mauro Galvão, aposentado, e o treinador Antônio Lopes, o rendimento do zagueirão caiu. Foi parar no banco de reservas.

Em 2002, transferiu-se para o Santos, mas pouco ficou. Voltou para o Rio de Janeiro, desembarcando no Botafogo, onde passou a enfrentar problemas não tão inéditos, como o atraso de salários e a falta de água. Era titular no time que caiu para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro daquele ano. Nada mais simbólico para uma carreira que já indicava flertar com a decadência.

Depois, passou pelo Coritiba, pelo Fluminense (como reserva), Dc United, dos Estados Unidos, Náutico e Estrela da Amadora. Com o bolso reforçado, teve relativo sucesso no carioca de 2006 pelo Madureira, quando venceu a Taça Rio ao lado do também veterano Djair. Mas logo após o término do estadual Odvan engatou uma estranha sequência de times inexpressivos na carreira: Rio Bananal, Ituano e Cabofriense.

Não dava para imaginar que o final da linha descendente da trajetória de Odvan no futebol seria justamente no Vasco.

De volta (para a grande queda)   

odvan1Em desespero, lutando para não cair, o Vasco resolveu recorrer aos jogadores da fase de ouro para tentar se salvar no Brasileiro de 2008. Em setembro daquele ano, Pedrinho e Odvan se juntaram a Edmundo no elenco. Apenas o último, ainda ídolo do clube, tinha status de titular.

O início de Odvan no plantel já mostrava que os ventos sopravam contra a cruz de malta. Logo no primeiro treino, o zagueiro entrou duro no atacante Leandro Amaral, principal esperança de gols de uma equipe tão fraca que tinha Madson como craque do elenco, lesionando o jogador por meses. O beque voltou a ser chamado de violento e brucutu por boa parte da imprensa carioca.

Quando o veterano Odvan entrava em campo, já não mostrava mais o mesmo poder de caça. Sem a velocidade de recuperação, um dos seus pontos fortes, o zagueiro não era mais útil. Só sobrava a força, geralmente excessiva – sem maldade, é verdade –, como o caso do Leandro Amaral evidenciou. Suas atuações eram acompanhadas por várias lamentações da arquibancada.

Na fatídica partida contra o Vitória, em São Januário, no dia 7 de dezembro de 2007, Odvan foi titular na derrota por 3 a 1, que culminou na queda do Vasco para a Série B.

As imagens da televisão focaram a imagem em Pedrinho, lacrimejando o rebaixamento atrás do gol. Mas Odvan também sofria dentro de campo. O rebaixamento encerrava a sua trajetória dos dois no Vasco de forma brutal, como o carrinho que rompeu os ligamentos do joelho do meia dez anos antes. De forma romântica para Pedrinho, chorando em frente às câmeras. De um jeito melancolicamente inédito para o sorridente Odvan, escondido por choros e vaias, semelhantes aos de Roberto Carlos na música que gerou a sua graça.

A não ser por saudade, a torcida nunca mais cantou o seu nome.

Vídeos

Para não ficar só na melancolia, dois grandes vídeos do zagueiro-zagueiro:

Odvan e o comprovante de residência

Odvan canta I Just Called To Say I Love You, de Stevie Wonder